• Quem Somos
    • Conselhos
12/06/2026

Junho Violeta: unidades da Rede Sesa ampliam olhar sobre combate à violência contra pessoa idosa

Bruno Brandão

Combater a violência contra a pessoa idosa é um dever coletivo que exige atenção e cuidado. Essa reflexão guia o Junho Violeta, campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) que busca conscientizar o cidadão sobre a proteção dessa população. Em alinhamento ao Dia Mundial de conscientização sobre o tema (15 de junho), as unidades da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) intensificam o acolhimento especializado e o olhar atento a esse público.

De acordo com a geriatra da Casa de Cuidados do Ceará (CCC), unidade de desospitalização da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), Sarah Leitão, os tipos de violência mais comuns observados na prática clínica são “o abandono e o abuso financeiro, ambos por parte de familiares”. Ela alerta para as consequências desses atos: “Além dos próprios danos físicos, as saúdes mental, emocional e social também podem ficar bastante comprometidas. Vale lembrar que humilhações e ameaças dos mais diversos tipos, agressões verbais e o isolamento social forçado caracterizam formas de violência psicológica. Para os idosos, essas violências têm o poder de piorar feridas emocionais profundas e de aprofundar os déficits cognitivos existentes”, explica.

Ela também orienta sobre sinais de que o idoso está sendo vítima de maus-tratos. “A presença de feridas, assaduras extensas na área das fraldas, emagrecimento acentuado, equimoses pelo corpo, falta dos medicamentos, falta de materiais e choro inconsolável são sinais bem comuns. Quanto aos idosos com demência, o relato de agressões e furtos pode ser confundido com a própria demência e menosprezado. Quando, em vez de apoio, a pessoa recebe violência, isso pode afetar sobremaneira sua qualidade de vida, suas escolhas e seu bem-estar”.

A cuidadora de idosos Cristiane Costa, 46, atua há quase 20 anos na profissão. Atualmente, ela atende em tempo integral uma paciente da CCC. Segundo ela, a atenção, o acolhimento e o olhar humanizado são primordiais para quem quer exercer o ofício. “Lembro que atendi um paciente idoso em um hospital que estava com hematomas, mas ele ficava mais tempo na cadeira de rodas. A família falou que ele caía do sofá e do balcão sozinho, por isso se machucava. Fiquei desconfiada e acionei o Serviço Social da unidade, que tomou as providências”, exemplifica.

“Já atendi paciente idosa que foi vítima de violência patrimonial por parte de um sobrinho. Também trabalhei em uma casa de apoio para terceira idade particular e vi pacientes em cadeira de madeira reclamando de dores, muita negligência. Juntei as provas e apresentei a uma médica, que realizou a denúncia. Quem não tem paciência ou cuidado deve procurar outra profissão”, acrescenta.

Para Cristiane, além da atenção, saber ouvir é um dos principais pré-requisitos para ser um bom cuidador de idosos. “Quando você se interessa pela história de um paciente 60+, ele busca contar tudo, fatos atuais e do passado, então conversar faz toda a diferença. Mesmo o paciente que não consegue interagir falando, ele escuta e entende. Você está cuidando do amor de outra pessoa, então tem que ter amor pelo que faz”, reflete.

Serviço Social do HGWA auxilia na identificação de casos de violência contra pessoas idosas com apoio de equipe multiprofissional

O Hospital Geral Waldemar Alcântara (HGWA), unidade da Rede Sesa localizada no bairro Messejana, destaca uma das frentes mais sensíveis de sua atuação: o acolhimento e o acompanhamento de pacientes idosos em situações que demandam atenção especial à sua segurança e bem-estar. Esse trabalho é conduzido pelo Serviço Social, que atua como elo entre o cuidado em saúde e a rede de proteção social e jurídica. “O Serviço Social tem um papel central para garantir proteção, direitos e continuidade do cuidado à pessoa idosa, ajudando a interromper ciclos de vulnerabilidade e reduzir o risco de revitimização”, explica Dayanne de Moraes, coordenadora do Serviço Social do HGWA.

Um dos maiores desafios enfrentados pelas assistentes sociais é justamente o que Dayanne chama de “violência invisível”: casos que chegam ao hospital com diagnósticos de queda, desnutrição ou abandono de cuidados e só depois são lidos como possíveis sinais de abuso. A negligência e a violência psicológica ou financeira apresentam dificuldade ainda maior, por não deixarem marcas óbvias e exigirem escuta qualificada e observação atenta.

A escuta, aliás, impõe outro obstáculo cotidiano. “A pessoa idosa, às vezes, está acompanhada o tempo todo por quem controla fala, documentos, celular e decisões. Criar condições para uma entrevista reservada nem sempre é simples na rotina do serviço”, aponta a coordenadora.

Atuação integrada com a equipe multiprofissional

Para dar conta dessa complexidade, o Serviço Social opera de forma integrada com os demais profissionais do hospital, articulando a dimensão social ao cuidado clínico. Na prática, isso se traduz em troca de informações, participação em discussões de caso, visitas multiprofissionais e definição conjunta de condutas, tudo centrado na pessoa idosa, não apenas no evento de saúde que motivou a internação.

“O Serviço Social trabalha em conjunto com a equipe multiprofissional de forma integrada e complementar, articulando o social ao clínico para que o cuidado seja seguro, contínuo e centrado na pessoa idosa. Na prática, isso acontece por meio das trocas de informações e auxilia na construção do plano terapêutico, na participação de discussões de caso e visitas multiprofissionais”, pontua a coordenadora.

As ações do Junho Violeta reforçam esse trabalho ao capacitar equipes para identificar sinais de negligência e abuso, padronizar fluxos de acolhimento e encaminhamento e fortalecer a articulação com a rede socioassistencial e de proteção. No HGWA, essas ações integram o Projeto Cidadão Consciente, por meio do qual profissionais do Serviço Social orientam acompanhantes sobre direitos sociais da pessoa idosa, formas de violência e canais de denúncia.

Comissão Girassol

Em 2024, o HGWA instituiu uma comissão interna voltada ao enfrentamento de situações de violência, a Comissão Girassol. O grupo é composto por equipe multidisciplinar e tem como função analisar casos em que as medidas iniciais não surtiram efeito ou situações que persistem e demandam resposta institucional mais coordenada.

Desde sua criação, a comissão promoveu capacitações com profissionais de órgãos externos, entre eles o Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (Nuavv), programas de proteção a vítimas e representantes do Ministério Público do Ceará, que apresentaram formas de acesso e programas disponíveis à rede.

“A Comissão Girassol surgiu a partir da necessidade identificada no cotidiano assistencial de qualificar a resposta do hospital a casos complexos, reduzir a fragmentação do atendimento e estabelecer um fluxo integrado entre os setores e a rede externa”, destaca Dayanne.

Caso de violência contra o idoso: onde denunciar

Em casos de suspeita de violência contra a pessoa idosa, o denunciante pode registrar a ocorrência no Disque 100 ou ainda no Alô Idoso do Ceará, por meio do número 0800-85-0022, ambos com ligação gratuita.

← Voltar

Leia também
Desenvolvido noStarlight logo marcaCriado porAdvance logo marca